Henrique Abel

O que os terroristas não são

Eles representam um risco eventual para a nossa integridade física, mas não podemos permitir que representem uma ameaça para os valores e princípios que o ocidente democrático.
23 de Novembro de 2015 11:10
Os atentados terroristas realizados em Paris, na semana passada, aparentemente despertaram poderes ocultos de clarividência e adivinhação em uma parcela significativa da opinião pública mundial. Enquanto que observadores qualificados e cientistas políticos agem com cautela na tentativa de compreender as razões e as sutilezas do modus operandi do Estado Islâmico, uma enorme gama de aparentes proprietários de bolas de cristal saiu disparando impressionantes “certezas” a respeito dos terroristas, frequentemente chegando ao cúmulo de afirmar que “o que o Estado Islâmico realmente quer é isso, isso e isso”.

Atentados em Paris.Uau! Será que a pessoa que diz isso é vidente? Será que enxerga verdades profundas lendo folhas secas de chá ou a borra do café no fundo uma xícara? Ou será que tem em casa uma linha direta com membros do Estado Islâmico, conversando com eles por horas a fio, desenhando assim um apurado perfil psicológico dos terroristas?

Talvez seja mais fácil a gente tentar entender as coisas analisando aquilo que elas não são. Primeiro: muita gente saiu dizendo que os atentados eram uma consequência da crise migratória. Não foram. Quem o disse foi o próprio Estado Islâmico, que afirmou que os ataques em Paris foram motivados pelas ações militares da França no Oriente Médio, pelas ofensas frequentes ao Islã (lembrem-se do atentado à redação do humorístico Charlie Hebdo, no começo do ano) e por questões que dizem respeito ao estilo de vida dos franceses.

A atual crise migratória não motivou nem a idealização dos ataques, nem tampouco foi o que possibilitou sua execução. Os terroristas estariam em Paris para executar os ataques, sem quaisquer problemas, com ou sem crise migratória. Vale lembrar que, pelo que se sabe até o momento, o mentor dos ataques não era nem da Síria, nem do Iraque, nem de lugar algum do Oriente Médio, mas sim da Bélgica! Além do suposto mentor dos ataques, já existe confirmação de que, entre os terroristas, havia mais um belga e pelo menos quatro franceses. Existe suspeita de que um dos envolvidos talvez seja um sírio. Ou seja: o que menos existiu nesses atentados foram "terroristas vindos de fora da Europa".

Também se disse muito por aí que os ataques seriam representativos do “problema” (?) dos muçulmanos na Europa. Os adivinhos que endossaram tal ideia deveriam ter se certificado de comprar uma bola de cristal que viesse acompanhada de uma calculadora, porque os números aí não fecham.

Façam a conta comigo: hoje, na França, vivem seis milhões de muçulmanos. Se 1% estivesse vinculado ao terrorismo, ainda assim não poderíamos dizer que isso seria uma parcela representativa do todo. Só que, se isso acontecesse, a França já teria sido inteiramente aniquilada pelo caos, pois estaríamos falando de sessenta mil terroristas explodindo bombas e atirando em pessoas nas ruas por todo o país. Se 0,1% da população muçulmana na França fosse terrorista, seria ainda mais absurdo tentar associar uma coisa com a outra. Ainda assim, teríamos seis mil terroristas fazendo o país pegar fogo.

O que eu quero dizer com esses números? Simples: quero observar que dizer que os terroristas eram “muçulmanos” é tão irrelevante quanto observar que eram bípedes. Uma dezena de homicidas ensandecidos não representam o islamismo, não representam as religiões e não representam os seis milhões de muçulmanos que hoje vivem na França. Tudo isso é tão arbitrário e desarrazoado quanto seria sugerir que os atentados em Paris denunciam o “problema dos belgas” na França!

Existem, nisso tudo, questões que envolvem uma maior complexidade, como por exemplo saber exatamente o que os terroristas querem, qual é sua lógica, quais as nuances de suas estratégias de médio e longo prazo e entender como eles têm obtido um sucesso tão grande no impressionante e assustador empreendimento de cooptar para sua causa tantos jovens europeus. Mas algumas questões são mais simples: os terroristas não representam os imigrantes e nem a religião, a nacionalidade ou a origem étnica de ninguém. Bandos de homicidas fanáticos que chacinam inocentes desarmados a esmo não representam ninguém nem nada além de sua brutalidade estúpida e seu fanatismo intolerante cego de ignorância.

Os terroristas representam um risco eventual para a nossa integridade física, mas não podemos permitir que representem uma ameaça para os valores e princípios que o ocidente democrático, à base de muito sofrimento e de muitas tragédias humanitárias, vem consagrando ao longo dos últimos setenta anos. Se um dia o medo nos transformar em apoiadores e entusiastas do terrorismo de Estado, este será o dia em que os terroristas terão vencido.

COMENTÁRIOS